Outubro 30, 2008...4:16 am

Picuinha entre amigos termina em tiroteio

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11 de julho de 1873

Dois amigos passam uma temporada em um país estrangeiro. Um deles decide voltar para a terra natal. Segue-se uma séria discussão. O outro, já bêbado e munido de um revólver, dispara dois tiros contra o amigo.

Parece coisa de novela, mas o fato realmente aconteceu, ontem, aqui mesmo em Bruxelas. Os franceses Arthur Rimbaud e Paul Verlaine, e ainda a mãe deste, estavam hospedados no Hôtel de Courtrai há alguns dias (o estabelecimento não nos forneceu a data precisa). Ontem à tarde, Arthur Rimbaud, de 18 anos, anunciou o desejo de retornar ao seu país natal. De acordo com ele, Paul, provavelmente embriagado, o impediu de sair do quarto em que estavam hospedados e disparou dois tiros em sua direção. Um deles acertou o pulso esquerdo de Arthur. O jovem foi socorrido por Mme Verlaine e levado ao Hospital Saint-Jean, onde foi feito um curativo.

O caso, que não teve repercussão durante toda a tarde de ontem, tornou-se conhecido apenas à noite, quando Arthur, mesmo com o braço na tipóia, decidiu deixar Bruxelas. Paul e a mãe o acompanharam à estação, sendo que o primeiro permanecia com o revólver no bolso do paletó. Segundo Arthur, Paul, que ia à frente com Mme Verlaine, parou de repente e voltou-se para o jovem. Temendo um novo atentado, Arthur correu até o primeiro policial que encontrou e denunciou o amigo. Paul foi preso imediatamente.

Arthur Rimbaud em sua foto mais recente, tirada há mais um ano (ao que parece o garoto não fotografava com freqüência...)

Arthur Rimbaud em sua foto mais recente, tirada há mais um ano (ao que parece o garoto não fotografava com freqüência...)

Mitos

Como em Bruxelas ninguém soube dar maiores informações sobre os dois amigos, a nossa produção, movida pelo caráter inusitado do caso,  foi procurá-las em Paris. Lá, descobriu que os desconhecidos de Bruxelas, são, na verdade, poetas bastante prestigiados pela boemia e pela intelectualidade francesa.

Arthur teria vindo de Charleville, cidade do interior da França, para Paris em 1871 a convite de Paul, o qual teria notado o grande valor de suas poesias e sido, desde então, quase um “padrinho” para o garoto. Ao instalar-se na casa de Paul, onde o mesmo vivia com a esposa e os sogros, o jovem causou um rebuliço na vida da família e, em particular, na do poeta.

Segundo a esposa de Paul, Mathilde, os dois amigos seriam, na verdade, amantes, o que fez com que a vida do casal fosse se deteriorando aos poucos. Ainda de acordo com ela, o humor instável e iconoclasta do jovem relacionado à suscetibilidade do marido, levou à auto-depreciação de Paul, fazendo-o afundar no vício do haxixe e do absinto (segundo outras fontes, entretanto, o poeta já era consumidor de drogas e álcool antes de conhecer o jovem, sendo o vício o verdadeiro responsável pelas crises do casal).

De fato, o jovem Arthur é descrito pela maioria das pessoas com quem conviveu na sociedade francesa como rebelde, impulsivo e debochado. Mas também é visto como o poeta mais revolucionário que surgiu na poesia francesa nos últimos anos, o que é uma proeza, considerando a sua pouca idade.

O poeta Stepháne Mallarmé fala da vez em que o viu: “Era alto, parecia forte, quase um atleta, o rosto ovalado dum anjo exilado, cabelos castanho-claros desalinhados, olhos azul-claros, mãos grandes como a de um camponês que tivesse escrito lindos poemas não publicados”. Ainda ressaltando o caráter revolucionário do poeta, o cineasta Jean Cocteau, diz que “nesse campo de uma força que escapa à análise e aos progressos da ciência, Arthur Rimbaud representa um terrível explosivo. Um raio de abril, uma arma, um heroísmo que se opõem à idéia toda feita do heroísmo e das armas”.

O suposto caso amoroso foi negado por ambos os amigos e nenhuma prova concreta da existência da relação foi encontrada. Há quem aponte alguns poemas de Paul como evidência, mas nada que ponha fim à polêmica. Segundo o Doutor em Letras Daniel Fresnot, “a história não passa de um mito, já que todos os outros envolvimentos amorosos atribuídos a Arthur são relacionados a mulheres”.

Já o estudioso Wallace Fowlie vai além da existência de um caso entre os dois e afirma que Paul e Arthur são na verdade um homem só. De acordo com ele, “A história de Verlaine e Rimbaud em Londres e Bruxelas representa um dos mitos do artista moderno. Essa história é repetida em forma literária por James Joyce na odisséia dublinense de Leopold Bloom e Stephen Dedalus. Esses dois homens são na verdade um só: o homem que se curva diante do século (Verlaine – Bloom) e o homem que ultrapassa o século (Rimbaud – Stephen), um herói que busca conhecer o amor por meio do que está além do amor”.

Pablo Picasso, em passagem pela estação de Bruxelas, presenciou o incidente e retratou Arthur Rimbaud

Pablo Picasso, em passagem pela estação de Bruxelas, presenciou o incidente e retratou Arthur Rimbaud

A história dos poetas franceses já é inspiração para um filme (de gosto duvidoso, aliás). Leonardo di Caprio, que faz o papel de Arthur, quando perguntado sobre a questão polêmica, diz acreditar na existência do relacionamento amoroso entre o seu personagem e Paul, pois segundo ele, “se está no roteiro, é porque é verdade!”

Aliás, parece que o jovem Arthur entrou de vez para o mundo da fama. Outra alusão à sua pessoa aparece no longa “I’m not there”, de Todd Haynes.

2 Comentários

  • Égua doido! Assim não dá!
    Além de inteligente ainda é criativa, pô Ju, manera aí né! Do contrário não tem combate ;)

  • Essa notícia do Rimbaud e do Verlaine ficou ótima!! muito bacana a tua criatividade, Ju!


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